Caro ninguém,
prezado não-leitor,
DoContra é uma produção coletiva da esquizofrenia, é certo! E é idealização minha, editorialista e escritor (Ctrl C Ctrl V) da coluna Brasil.O princípio DoContra era a máxima que diz: “ou você está iludido, ou é niilista, ou é drogado”. Desacretidar, des-esperar é o principal sintoma do mal do fim (ou início) do século. E está difícil (ou muito fácil) ser irônico nesses tempos. O calor global nos desengana; a falta de dignidade como razão do humano autônomo nos mutila; a gratuidade (banalidade) dos atos de violência nos atinge; a insensibilidade e o egoísmo nos mata.
A insanidade é coletiva. A doença é epidêmica.
A crise DoContra aí está: quando a morte banal e estúpida nos bate à cara; quando as notícias próximas nos trazem atos bárbaros que não poderiam ser classificados animalescos, mas sim próprios, únicos da nossa espécie suicida; como continuar a escrever ironias sobre “a inviabilidade da sobrevivência”?
Esta não é uma nota de despedida, ou fechamento DoContra. As demais editorias estão convidadas e devem continuar a escrever (ou começar, ou escrever seu 2º texto).
Mas é que não dá mais… a tristeza é latente e já não há mais nem a desilusão. Indignação? Indignado estou por toda a humanidade. E, se assim é, não resta nem a indignação.

(foto: Bel de Cristo Garçoni)
… a contradição, somos a favor:
Cálice
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque e Gilberto Gil
(refrão)
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
(refrão)
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
(refrão)
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
(refrão)
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguem me esqueça



